A raiva te consome
e nós consumimos raiva
Terminei de ler As mulheres estão com raiva, da Jennifer Cox, um livro que eu estava aguardando para ler junto com os demais livros para construção da Jornada pelo Amor. A raiva é um tema que eu venho estudando ao longo dos anos, especialmente ligada a algumas deusas como Sekhmet e Hera. Inclusive, falo um pouco de raiva e ira, a partir da perspectiva da Clarissa Pinkola Estés.
Enquanto ia lendo o livro, fui pensando (a partir da minha perspectiva de vida e também de acompanhar muitas mulheres, em trabalhos em grupos e atendimentos pessoais) que conforme vamos tendo nosso letramento feminista e também nosso resgate das histórias da Deusa, naturalmente vamos ficando com muita raiva no processo, por mil razões e motivos.
Não somente pelo entendimento histórico do processo de criação, manutenção e sustentação do patriarcado e seus filhotes - capitalismo e neoliberalismo -, mas pela compreensão dos seus mecanismos em nossas vidas desde antes nosso nascimento.
Podemos entender que essa raiva é ancestral e ao mesmo tempo, uma emoção que possibilita uma reparação histórica - porque através dela, vamos construindo uma nova narrativa para nossas vidas.
Ao mesmo tempo que a raiva é necessária e essencial, eu me peguei lembrando de um momento específico no tempo, onde eu já não conseguia mais ler teoria feminista e nem livros que contavam como a deusa havia sido apagada, subjugada, exilada e morta em diferentes tradições. Chegou um momento em que começou a me dar crise de pânica e comecei a sentir dores insuportáveis pelo todo corpo.
Eu fiquei com o questionamento: quanto de raiva é necessário? Será que não chega de tanta raiva?
Porque para todos os lados que eu olhasse, todo mundo estava com raiva, ódio, ira e era algo 24 horas, sem nenhum tipo de pausa. Raiva de tudo e de todo mundo. Repetições de como era uma merda ser mulher nesse mundo. Comecei a perceber, que estava começando a ficar com raiva de mim mesma - por ter nascido do sexo feminino.
Era essa raiva que estava me consumindo ou melhor, eu estava consumindo raiva além da conta. Tinha virado uma compulsão alimentar, porque quando mais raiva você sente, mais você será alimentada dela. E os algoritmos sabem disso: só vão te alimentar com notícias para aumentar sua raiva e nos comentários, uma pessoa estimulando raiva nas demais. É uma guerra sem fim.
Inclusive em um simples google, você fica sabendo que somos vítimas o tempo todo, o próprio nos diz que: "Rage bait" (isca de raiva) que é um tipo de conteúdo online criado intencionalmente para provocar raiva, indignação ou irritação nos usuários. O objetivo é gerar alto engajamento — comentários, compartilhamentos e reações — manipulando algoritmos de redes sociais. Foi nomeada como palavra do ano de 2025 pela Oxford University Press.
Perceba que o grande problema, não é todos os conhecimentos que você adquire e que te fazem ficar raivosa com toda razão. Porque você começa a observar no dia-a-dia, tudo aquilo que te faz ficar com raiva, novamente, com razão e na maioria das vezes, sem direito a dar vazão. O problema é que nós somos alimentados de raiva o tempo todo, por todos os lados!
O problema real então é: O QUE EU FAÇO COM ESSA RAIVA TODA?
Eu sinto e senti que eu era como uma fogueira, onde colocaram um monte de lenha, tocaram fogo e me largaram lá, pegando fogo, até minha consumação total. Talvez, seja por isso, que eu sempre busquei deusas do fogo para sustentar meu trabalho e minha vida - por que fogo demais é um problema também!
Voltemos ao livro: ao longo do livro ela vai relatando alguns casos de pacientes com suas raivas (por detrás de vários sintomas, em diferentes fases da vida) e as estratégias que ela utilizou para lidar. Finalmente, alguém que mostrou que a raiva precisa ser canalizada - algo que racionalização e conscientização dela apenas, não dá conta!
Muitas das estratégias sugeridas por ela ao longo do livro, eu já utilizo. Graças à Deusa eu pratico yoga desde meus 18 anos, danço e escrevo, senão teria entrado em combustão espontânea. E apesar de ter criado o Devi Shala, e canalizar minha raiva (não somente ela) para capacitar e despertar mulheres, e claro, acreditar que estou sendo útil na construção de um mundo melhor, isso não era o suficiente.
Porque a raiva que nos habita não é só nossa - ela é ancestral e ela é coletiva.
Além disso, nós somos bombardeadas 24 horas e sem descanso algum com notícias que fazem com que a gente sinta raiva o tempo todo - literalmente, o tempo TODO! E vejo também, que sempre que estamos em grupos, o que nos une é a raiva e todas as desgraças…dão muito mais ibope do que compartilhar coisas boas.
Fica insustentável viver só de raiva e de coisas odiosas 365 dias do ano. Pode parar bacana e subversivo, mas estamos nos autoconsumindo.
E preste atenção, o problema não é a mulher sentir raiva, porque ela precisa mesmo. Inclusive, a raiva é uma emoção natural, dentro do BodyTalk utilizamos muito a raiva e nosso fígado, e no Yoga, com base tântrica, a raiva é combustível, não é reprimida e nem sublimada. Mas, é direcionada - é uma potência e precisa ser canalizada.
Senão, torna-se também autodestrutiva. Porque simplesmente, sentimos um monte de raiva dentro de nós e não fazemos nada com ela. Não adianta só sentir raiva do mundo e de tudo - o que você faz com ela?
Venho novamente tocar em uma tecla, que sempre que posso volto - para além das ações práticas que vamos tomar seja socialmente, seja em nossos lares, trabalhos, relacionamentos e afins, precisamos fazer algo com essa raiva:
Tirar ela para dançar
Levar ela para passear, correr ou nadar
Esmurrar e colocar ela para fora: saco de pancada, travesseiro (eu já gritei em cima de um viaduto várias vezes com amigas na época do colégio e no yoga temos o Sopra Ha e o Simhasana que ajuda muito também!)
Expressar através da arte
Falar, comunicar e ver o que a raiva quer dizer
Ouvir os sintomas (agora vem meu lado junguiano, rs)
Fazer yoga, artes marciais, enfim, se mexer!
Práticas de respiração e meditação
O que não podemos é ficar parada :)
Essas são coisas que eu faço para lidar não somente com a raiva mas com todas emoções e situações intensas em minha vida e muitas delas eu ensino em aulas de yoga ou tento falar em aulas e atendimentos quando necessário. Quais são os recursos que você utiliza diariamente para expressar, canalizar e mobilizar a sua raiva?
Porque, eu vejo que ainda assim, há raiva demais dentro de mim, que eu já não dou conta de alimentar ela, ela tá literalmente acabando com a minha vida - não posso viver só com raiva ou na força do ódio. A minha vida e eu espero que a sua também, deveria ter momentos de alegria, de prazer, de leveza e coisas realmente boas!
Pode ter certeza, que eu não esqueço um minuto sequer da minha vida do índice crescente de feminicídio. Eu lembro todas as histórias horripilantes que as mulheres contaram em círculo ou em confidência em atendimentos. Mas, nossa resistência e revolução não pode ser só raivosa e na base do ódio, ela precisa também ser construída com gentileza, afetos e amor, comunhão e bons encontros, prazeres e gozos, risadas e gargalhadas e possibilidades de se divertir.
A raiva pode nos levar para outro patamar quando bem trabalhada. A raiva encontra-se no elemento madeira e também no fígado, dentro do ciclo Sheng, a madeira deve alimentar o fogo, ou seja, a alma alimenta o espírito com sabedoria, consciência e alegrias! Do fígado, podemos chegar no coração e buscar viver com amor próprio, aos outros, respeito, consciência, alegria (não só tristezas), paz e proteção.
Todas nós merecemos isso e muito mais. Para isso, a raiva que nos faz com que resgatemos nossa própria voz, nos posicionemos, coloquemos limites, comuniquemos nossas frustrações, insatisfações e dores, para alcançar uma vida justa, digna e equalitária, também, precisa ser àquela que nos leva a conseguir ter uma vida não somente com dias de luta mas também com dias de glória.
Precisamos ser bruxas sábias e saber a quantidade certa de raiva que precisa ir na poção que estamos preparando há anos em nossos caldeirões, e saber, que toda receita é feita de um equilíbrio entre os ingredientes - a pura harmonia. Então, mulher, eu te pergunto: quais ingredientes estão faltando no seu caldeirão que já tá carregado de raiva?
Os caminhos da alma que estão disponíveis para nós através da deusa são múltiplos. Realizo meu sacerdócio à deusa ofertando possíveis rotas, onde você heroína, pode realizar o caminho da alma. Sejam através das Jornadas da Heroína, seja através da prática de yoga, meditando regularmente com a deusa (através do DeusaFlix, no Apoia.se), lendo o que escrevo aqui advindo não somente de estudos mas de uma vida dedicada à deusa, seja através dos atendimentos com ferramentas de autoconhecimento e autodesenvolvimento, como a Astrologia, o BodyTalk ou a Womb Blessing, ou seja quaisquer outros caminhos que a alma derramar à sua frente.
Estou aqui, para caminhar com você e esse é meu serviço e também meu sustento.



A raiva é uma dificuldade que tenho, pq costumo conter e aí quando extravasa é terra arrasada... hoje já lido um pouco melhor mas também optei por ter menos notícias sobre aquilo que nós já sabemos como é para não me consumir tanto nessa fogueira.
Por muito tempo eu tentei ser uma pessoa boazinha que suprimia a raiva e eu adoeci de um jeito... Hoje, depois de muita terapia, yoga e etc. sei usar a raiva como força motora pra me impulsionar. Mas eu cansei de ficar alimentando ela, não fico lendo as notícias todo dia, não fico compartilhando Epstein etc. Eu SEI do inferno na terra que é a vida das mulheres, mas eu escolhi não ficar me punindo consumindo isso também.
E seu trabalho eu recomendo com nota 10, 5 estrelas!